Fabrício Sanfelice

Fronteiras – Limites que matam

Fronteiras são, por si só, imposição de um povo sobre o outro e nada além de limites imaginários perpetuados através da espoliação. Em um mundo verdadeiramente livre, não há de se falar em países ou proibição de trânsito. Todo e qualquer cidadão pode, se as suas condições permitirem, cruzar esses limites imaginários e se estabelecer onde melhor lhe convir. O paradigma clássico da criação desses estados e fronteiras é, segundo Oppenheimer, aquele de uma tribo conquistadora que resolveu fazer uma pausa no seu método — testado e aprovado pelo tempo — de pilhagem e assassinato das tribos conquistadas ao perceber que a duração do saque seria mais longa e segura — e a situação mais agradável — se ela permitisse que a tribo conquistada continuasse vivendo e produzindo, com a única condição de que os conquistadores agora assumiriam a condição de governantes, exigindo um tributo anual constante. Ou seja, essa fronteira surgiu a partir de um ato violento contra uma população pacífica, onde o modo de vida e a cultura são impostos ou permite-se preservá-lo contanto que não se vá contra a dominação do agressor.

A partir dessa análise de formação de fronteiras, é inviável dizer que algum povo teria o direito de barrar outro de naturalmente e pacificamente romper limites e se estabelecer em um novo local, ou procurar asilo e trabalho em um outro país. O sentimento é de quase incredulidade quando um povo se sente ameaçado pela presença de qualquer outro, principalmente no que se refere as forças de trabalho. Não há de se falar em ameaça a mão de obra local ou roubo de postos de trabalho. É difícil de imaginar um cenário onde uma pessoa que não fala a sua língua nativa, não conhece a cultura, não tem contatos ou influência possa conseguir roubar emprego de um cidadão local. A diferença é que esses imigrantes vão para tais países, estão saindo de situações de miséria e pobreza extrema (menos de dois dólares por dia), dessa forma, estão mais dispostos a ocupar qualquer posto de trabalho, principalmente os rejeitados pelo povo nativo da região onde escolhem se estabelecer.

Outra preocupação dos governos com a imigração gira em torno justamente da situação de miséria em que se encontram esses povos e do choque de cultura. Muitos governantes acreditam que esse fluxo irá aumentar os índices de criminalidade e de miséria de seus países, porém, isso tem uma causa bem nítida: há excessiva burocracia para o emprego dessa mão de obra excedente se alocar. Ao proibir que os imigrantes negociem seus salários ou colocando imposições extras para a legalização dos imigrantes como trabalhadores os governos impedem que haja concorrência e que esses imigrantes consigam uma fonte de renda, os obrigando ou a trabalhar de maneira ilegal ou a recorrer a criminalidade para poder dar sustento às suas famílias refugiadas.

Ainda falta muito em questões humanitárias para que seja possível falar em um mundo sem fronteiras ou com maior mobilidade de pessoas. Apesar de termos uma economia altamente globalizada e quase irrestrita troca de bens, as questões de soberania ainda são muito fortes e há pouca ou nenhuma vontade política para essa mudança. Concordar que abrir fronteiras para imigrantes seria algo positivo implicaria em queda de outras barreiras também virtualmente impostas, como as de livre comércio de bens e serviços. Poucos são os países que se mostraram abertos a imigração, talvez o mais notável caso seja o de Hong Kong onde, apesar do forte domínio chinês, se tornou referência para imigrantes que buscavam uma vida melhor. Foi preciso que a ilha abolisse burocracias e a abrisse suas portas totalmente ao capital humano e financeiro. Os resultados são nítidos: além de um dos países mais livres, também é um dos mais prósperos da atualidade. O que é ótimo para a população, é ruim para os governos. Para essa abertura a nível global seria necessário diminuir o tamanho do governo e a sua participação na vida de seus cidadãos e dos outros que desejam adentrar ao estado, seria necessário abdicar da tal soberania e do orgulho nacionalista impregnado em muitas culturas.

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