Luciano Rolim

Egoísmo e Ganância

 Atlas

“A geração de hoje cresceu num mundo em que, na escola e na imprensa, o espírito da livre inciativa é considerado como indigno e o lucro como imoral, onde se considera uma exploração dar emprego a cem pessoas, ao passo que chefiar o mesmo número de funcionários públicos é uma ocupação honrosa” – Friedrich Hayek

Uma das grandes críticas ao capitalismo é a alegação de que ele é um sistema egoísta. As pessoas aprendem na infância, seja na escola, em casa ou qualquer outro lugar, que devemos ser benevolentes e ajudar os outros. Pensar no próximo é bom. Pensar apenas em si mesmo é ruim. Não devemos ser ambiciosos, orgulhosos, egoístas e gananciosos, mas sim humildes e solidários. A maioria das religiões também diz isso.

Alguém que, já adulto, assume de livre e espontânea vontade “Eu sou egoísta e só me importo com os meus interesses” é extremamente mal visto pela maior parte das pessoas. Poucos, inclusive, se consideram egoístas. É sempre “os outros” que são. Egoísmo, no pensamento popular, remete a várias coisas ruins – mesquinhez, arrogância e a ideia de passar por cima de tudo e todos, violando qualquer lei ou preceito moral.

A maioria das pessoas associa capitalismo com egoísmo e ganância e o comunismo com benevolência, altruísmo, coletividade e solidariedade. Assim, um grande número de incautos acaba sendo atraído pelas ideias socialistas porque é um sistema que se propõe a ser mais “solidário”, enquanto os capitalistas são malvados que só se importam com o lucro.

Se egoísmo significa apenas agir visando apenas os próprios interesses, então todas as pessoas do mundo são egoístas em tudo que fazem e desejam. Qualquer ação tomada por um ser racional visa melhorar a situação do agente que toma essa ação. Tudo o que fazemos é para nos sentirmos melhor. Se alguém doa boa parte do seu salário para a caridade, essa pessoa pode ser considerada benevolente, porém ela só faz isso porque se sente melhor quando ajuda os necessitados. Isto é, ela age de acordo com seus próprios interesses, que coincidem com os interesses de outras pessoas.

Porém a palavra egoísmo, na concepção popular, significa outra coisa. O egoísta é aquele que só age em benefício próprio, e nunca leva em consideração as outras pessoas. Ele só quer saber de si e não se importa em ajudar os outros. Não é caridoso e não se interessa em ser útil para a sociedade ou em ser bem visto pela mesma. Uma pessoa gananciosa é aquela que só pensa em ganhar e acumular dinheiro, e nunca se importa com o aspecto social. Eu não nego que existem muitas pessoas egoístas e gananciosas no mundo. Na verdade, eu particularmente acho que o egoísmo (no sentido comum da palavra) é comum em quase todas as pessoas. O que eu nego é que isso seja necessariamente ruim.

No livre-mercado, a única maneira enriquecer é atendendo a uma demanda consumidora. Os indivíduos gananciosos, ambiciosos e ávidos pelo lucro, se fizerem uso do mercado para ganhar dinheiro, e tiverem sucesso na sua busca pelo mesmo, então estarão simplesmente atendendo melhor aos desejos dos consumidores, mesmo que isso seja uma consequência indireta e não planejada de suas ações.

Quando um comerciante decide vender seus produtos ele não pensa “As pessoas vão sentir bem-estar comprando as minhas coisas”, mas sim “Vou ganhar dinheiro”. E o comprador não pensa “Vou ajudar o vendedor e todos os envolvidos na cadeia produtiva, contribuindo para manter o emprego de várias pessoas”. O que ele pensa é “Eu quero isso e quero agora”.

Adam Smith já apontava que o egoísmo natural é a base do bom funcionamento da economia. Um de seus exemplos mais famosos é o do padeiro. O padeiro não faz pães por amor aos outros. O único amor que ele possui é o amor próprio. Da mesma forma, um cervejeiro não vai oferecer uma cerveja de boa qualidade e um preço acessível aos clientes porque ele quer trazer alegria aos consumidores, mas sim porque é dessa maneira que ele vai prosperar. Como o pai da economia moderna bem destacou:

“Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelo seu próprio interesse.” [1]

Imaginemos um empresário que trabalhou honestamente numa busca obsessiva pelo lucro e que foi bem sucedido. Ele assumiu riscos, fez trocas voluntárias, gerou empregos, criou riqueza e atendeu às necessidades das massas. Querendo ou não, ele ajudou mais a sociedade do que inúmeros seres altruístas e moralmente elevados que tanto criticam a ganância das pessoas.

A amônia, uma mistura de hidrogênio e nitrogênio a altas temperaturas, foi uma das invenções mais benéficas da história da humanidade. Foi ela que permitiu a criação de fertilizantes, que serviram para aumentar enormemente a produtividade agrícola e diminuir bastante a fome no mundo.

Quem criou a amônia foi o químico alemão Fritz Harber, considerado um sujeito detestável, vaidoso e cru. Mesmo sendo um produto extremamente útil, Harber o criou por interesse próprio, e não por querer ajudar a humanidade. Foi uma acirrada discussão acadêmica e a possiblidade de humilhação científica, e não uma sensação de benevolência, que motivou a fundo seus estudos que resultaram na criação da amônia. Um sujeito egoísta? Sim. Um dos que mais ajudaram a humanidade? Também. [2]

No começo do século XX, na mesma época em que Fritz fazia seus estudos, do outro lado do atlântico o industrial Henry Ford, graças a novos métodos de produção, produzia carros em massa e com um preço acessível para o estadunidense comum, enquanto os salários de seus operários eram superiores aos de funcionários de empresas concorrentes. Henry Ford não fazia essas duas coisas – produzir carros baratos e pagar salários altos – por benevolência e altruísmo, mas simplesmente porque a produção e consumo em massa é o que dava (e ainda dá) mais lucro e porque salários maiores atraiam os trabalhadores mais qualificados.

Eu não estou dizendo que o egoísmo é um comportamento que deva ser seguido. Muito pelo contrário, acho louvável alguém ser altruísta e caridoso. Só estou dizendo que, conquanto o egoísta atue dentro da margem da lei, não roubando, não fraudando e não fazendo qualquer outra coisa ilegal, o seu egoísmo não é ruim, tampouco deve ser moralmente reprovável.

Os argumentos utilizados até agora para a defesa do egoísmo se baseiam na ideia de que o egoísta acaba ajudando as outras pessoas não intencionalmente. Mas digamos que isso não acontecesse, e o comportamento das pessoas gananciosas e egoístas nunca beneficiassem ninguém. Seria uma conduta condenável nesse caso?

As pessoas têm suas próprias escalas de valores para serem felizes. Se para alguém a felicidade não envolve ajudar os outros e pensar no próximo, por que isso seria ruim? Se um indivíduo consegue prosperar e alcançar uma sensação de bem-estar se preocupando apenas com si mesmo, não violando o direito de ninguém e sempre agindo dentro da lei, onde está o problema?

Um sistema que obrigasse as pessoas a terem um comportamento benevolente e altruísta seria abominável, pois violaria a liberdade do cidadão de seguir o estilo de vida que quisesse. As pessoas não têm obrigações ou responsabilidades em relação às outras. A única obrigação do indivíduo é não violar o direito dos outros, e cumprir com os compromissos e responsabilidades que assumiu.

O que eu considero relativamente absurdo é quando dizem que o governo é necessário para conter ou amenizar a ganância ou o egoísmo das pessoas. O Estado é formado pelas pessoas que o compõem. Não existe nenhum motivo razoável pra supor que os políticos e os funcionários públicos sejam menos gananciosos do que o resto da população. Pelo contrário, muita gente entra no governo justamente com o objetivo de roubar o dinheiro do povo. O próprio Estado só pode existir usurpando o dinheiro das pessoas por meio dos impostos. Ele é que é o maior ganancioso de todos, e também o pior de todos, pois o eterno desejo do governo por mais recursos financeiros só é solucionado aumentando-se a carga tributária e consequentemente espoliando ainda mais a riqueza dos cidadãos. Como disse o economista Thomas Showell:

“Eu nunca entendi por que é ‘ganância’ querer manter o dinheiro que você ganhou, mas não é ganância querer pegar o dinheiro alheio.” [3].

O liberalismo econômico é o melhor sistema que aproveita o egoísmo das pessoas. Ao invés de existirem privilégios que nem em outros sistemas, no livre-mercado aquele que quer muito dinheiro tem que atender às demandas consumidoras, e não colocar uma coroa na cabeça e obrigar os aldeões a pagarem impostos. Na maior parte das vezes o egoísmo das pessoas é o que as levam a produzirem a comida da nossa mesa, abrirem empresas inovadoras e criarem invenções que tornam a nossa vida mais confortável. É o espírito egoísta que ajuda a mover o mundo.

Referências:

[1] – Adam Smith, A Riqueza das Nações.

[2] – Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo, Leya, páginas 265-266.

[3] – Thomas Showell, Barbarians inside the Gates and Other Controversial Essays.

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2 respostas »

  1. Republicou isso em Travels, conquests and queriese comentado:
    No momento em que terminava de ler este artigo, olhei pra TV e estava um senhor dizendo que, vendendo lanches, como sanduíches, salgados e sucos, ele pôde, além de se sustentar, pagar a faculdade do filho e ter uma vida mais confortável. E ele não precisou ter uma ideia genial para alcançar isso: ele forneceu para pessoas aquilo que ele sabia fazer de melhor, e conseguiu prosperar, dando emprego a outras pessoas e atendendo bem seus consumidores.

    É basicamente assim que funciona o Capitalismo. Não é um sistema tão maligno, como muitos acreditam. Recomendo a leitura do artigo abaixo pra entender porque o auto-interesse não é tão condenável (eu, particularmente. não gosto de usar a palavra egoísmo) e como pode beneficiar toda a sociedade. E, caso você se interesse sobre o tema, leia o livro do Adam Smith. Poucas leituras foram tão interessantes pra mim quanto A Riqueza das Nações.

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