Romário Becker Alcântara

Economia é cultura!

economia é cultura

*Por Romário Becker Alcântara

            Cultura pode ser tanta coisa, que ninguém até hoje deu uma conceituação pacífica ao termo. E quando encontramos alguma que nos agrade, preenchemos esta lacuna com pensadores tidos como “revolucionários” em seu tempo, servindo eles de inspiração até os hodiernos dias.  E isso é de provocar calafrios: só os “esquerdistas” são levados em conta como “intelectuais”; já com os demais, sejam lá “direitistas”, liberais, libertários, e demais correntes, são esquecidos neste processo. Caso sejam lembrados, será em algum comentário de nota de rodapé. E isso é grave!

            O por quê disso ser grave? Porque isso limita severamente o “funil” que os historiadores (geralmente “ceguetas”, e providos de uma “viseira” que lhes agrada um tanto devido ao marxismo cultural que cultivam) põem em suas obras de análise da toda história. Se, já por ventura, esquecem-se de pessoas notáveis em sua literatura científica e abrangente da história para estudar todo um contexto político-econômico-social complexo, imagina o que dizer “daquilo que não se vê” (aquele abraço, Bastiat)!

            Sobre aquilo que não se vê, cita-se o exemplo das ciências econômicas. Pois notem que a Economia talvez seja uma das áreas mais estudadas superficialmente, infelizmente – pelos historiadores, então, “melhor não comentar”. A microeconomia como reflexo de medidas macroeconômicas, então, se estudadas, são em geral sempre através de um viés que, no mínimo, é “omisso e conivente” com quem está no poder. E o melhor exemplo do que digo aqui foi dado nesta semana, em um texto de Carlos Goés sobre a “revolução” que foi o Plano Real para o Brasil.

            Já desde antes da ditadura militar, os governos brasileiros usavam corriqueiramente a máquina pública para financiar seus projetos faraônicos. Brasília só foi um deles – acredite! Juscelino Kubitschek, saudado com certa nostalgia pelos nossos ancestrais “pela boa governança” (sic), é outro que se junta na lista dos que acreditavam piedosamente na fantasia keynesiana de que “era só imprimir dinheiro e voi là: mais uma obra pública pronta, e com recursos impressos e que serão pagos pelo povo futuramente!”

            A finalidade de se constatar isso desde lá, até a inflação na casa dos quatro dígitos das décadas de 1980 e 1990, mesmo que só de lembrança nas memórias que se tem, é de ver que isso impacta diretamente o bolso do cidadão brasileiro comum, que pouco ou nada pode influir nas decisões macroeconômicas da administração pública federal.

            Pois veja: observem um brasileiro comum, que já não ganha grande coisa devido aos altos impostos indiretos nos produtos básicos para sobrevivência – sejam alimentos, medicamentos, artigos eletrônicos, serviços, etc – e que sofre pra conseguir guardar um pouco no final do mês. Vejam esta figura cuidadosamente. Como ele se comportaria sabendo que ele nota que, mês a mês, o seu dinheiro vale menos e menos? Isso mesmo: ele gastaria tudo, pois afinal, nada mais lógico que gastar agora do que gastar depois, visto que vai desvalorizar mesmo.

            Vale ressaltar que a política de arrocho salarial acompanhou o cidadão brasileiro por quase todo o século XX. Em condições como esta, fica muito difícil guardar alguma quantia de dinheiro no banco: você coloca na poupança, mas ela rende menos que a inflação. E isso é desesperador – perguntem aos seus pais o que era o tal de “overnight”, um dos investimentos bancários mais bizarros que já houve na história financeira brasileira.

            Políticas monetária e fiscal que atuem desse modo sobre o bolso do cidadão brasileiro médio causam um grande impacto quando isso se atravessa por gerações: “para quê poupar?”, devem todos se indagar, “guardamos no banco, todavia o nosso dinheiro está se desvalorizando, pois a inflação já passou a tempos da casa dos dois dígitos”, explicam eles, “logo, vamos gastar esse dinheiro de vez, antes que ele não valha nada!”, concluem com ponderação racional que praticamente todos os consumidores podem chegar. Aliás, “♪A taxa (não) é zero, o juro é alto, vamos conversar/ Ressarcimento, pagamento vamos, negociar!♫”.

            Portanto, assim se vê que a história econômica de uma nação influi diretamente o modo de pensar monetariamente nas unidades mais básicas da sociedade: o indivíduo, e logo após, sua família. É praticamente impossível se criar uma cultura de poupança em um país com governos que não respeitam os institutos da propriedade privada (o que falar da “função social da propriedade”? Tornamo-nos enfiteutas do governo!), da poupança (que – pasmem! – rende menos que a inflação), e da livre-iniciativa (prefere-se não comentar muito neste texto sobre o corporativismo de sindicatos, tanto trabalhistas quanto patronais, que aqui na terra brasilis se desenvolveu a pleno e incessante vapor ).

            Logo, neste breve ensaio, conclui-se que não se pode “condenar” o sujeito ordinário por gastar tudo o pouco que tem em artigos que, a princípio, são ou de luxo ou voluptuários: ele está apenas condicionado pela realidade econômica em que vive. Se tu recebesses um salário mínimo (ou, ainda, menos que isso), e conseguisse guardar um pouco, e visse que, mesmo aplicando essa quantia que sobra (dentro do – parco – conhecimento de economia que tu terias se estivesse em um cenário destes, já que bens culturais seriam bem mais difíceis de consumir), renderia menos que a inflação, eu tenho praticamente certeza (quase) absoluta que tu gastarias esse dinheiro. E com razão!

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