Mateus Maciel

Revoluções e liberdade econômica: União Soviética

Antes da tomada do poder pelos bolcheviques, em 1917, a Rússia estava mergulhada em um grande mar de anacronismo. Com um sistema de governo ainda monárquico e controlado pelo czar Nicolau II, o império que conseguiu derrotar Napoleão Bonaparte não era capaz de solucionar suas questões internas e externas.

A partir do final do século XIX iniciou-se o processo de industrialização russo, com a atuação de empresas nacionais e estrangeiras. A penetração cada vez maior de grandes empresas inglesas, norte-americanas e alemães, assim como a participação do empresariado russo foram de suma importância para dar emprego a pessoas oriundas do campo, que haviam falido devido a concorrência de camponeses que estavam obtendo êxito na produção de gêneros agrícolas.

A guerra com o Japão (1904 – 1905) e a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) acabou por tornar a situação do país ainda mais complicada. Com forças militares mal preparadas frente as tropas japonesas e alemães, as mortes de russos nos fronts, assim como as perdas territoriais e o aprofundamento da situação econômica, uma vez que a economia se voltou para o esforço de guerra, só agravaram o descontentamento com o governo de Nicolau II.

Após a tomada do poder, os bolcheviques adotaram uma série de medidas econômicas: abolição dos empréstimos contraídos nos governos anteriores, nacionalização dos bancos, estradas de ferro e do comércio exterior, além da assinatura de um tratado de paz com a Alemanha. Como consequência, a Rússia perdeu três quartos de suas minas de carvão e ferro, assim como abriu mão da Ucrânia, Finlândia, Estônia, Letônia, Lituânia e Polônia.

Com medo que a revolução vermelha se espalhe pelos demais países da Europa, inúmeras nações enviaram tropas para tentar impedir o prosseguimento da revolução. Por mais que o Exército Vermelho tenha vencido o conflito contra as forças estrangeiras, o Comunismo de Guerra teve que ser adotado para que a revolução não acabasse.

Dessa forma, o consumo e a produção foram fortemente regulados pelo estado (tendo este tomado a força o excedente de vários camponeses) e as grandes indústrias foram expropriadas. Além disso, o governo passou a obter o monopólio dos cereais produzidos em território russo. O resultado disso foi um grande descontentamento popular, que foi duramente reprimido. Muitos camponeses morreram de fome e outros vários foram exterminados pelos simpatizantes da revolução.

Para que a revolução não seguisse perdendo apoio popular por conta das medidas autoritárias implantadas, Lênin e seus burocratas desenvolveram a Nova Política Econômica (NEP) que perdurou de 1921 a 1927. O interessante sobre essa política econômica é que os próprios socialistas compreenderam que a revolução jamais prosseguiria se medidas liberais não fossem adotadas.

Com isso, a liberdade de comércio foi permitida, o funcionamento de pequenas indústrias privadas, o ressurgimento de grandes empresas agrícolas, assim como a atuação de capital estrangeiro. “Mas, simultaneamente, o Estado conservava seu direito de propriedade sobre a terra e todos os meios de produção, controlava os transportes, os bancos, a grande indústria, o comércio externo. Havia, então, um setor privado e um setor público em concorrência” (DUROSELLE, J.B. Historie: Le Monde Contemporain. Fernand Nathan, página 129.). Os resultados da NEP foram positivos, uma vez que a produção industrial ultrapassou o nível anterior à guerra, assim como o rendimento do setor agrícola.

Nos anos seguintes, principalmente no governo de Stalin, as políticas econômicas fizeram com que a Rússia se fechasse cada vez mais para o mundo. O objetivo agora era tornar a URSS cada vez mais independente, capaz de tocar seu processo de industrialização sem o auxílio de métodos capitalistas.

Conclusão

A Revolução Russa provou que o livre mercado pode salvar até mesmo uma revolução socialista. Os problemas políticos que antes eram vividos pela Rússia, não foram vencidos de fato. A participação do povo na vida política era mínima, sem falar na falta de transparência que se seguiu depois de 1917.

O assassinato de milhares de russos, seja por bala ou fome, foi resultado de uma política econômica profundamente intervencionista que feriu completamente as liberdades individuais. Tamanho foi o atraso causado pelo Comunismo de Guerra que o próprio governo adotou uma boa dose de capitalismo.

Dessa forma, a liberdade econômica durante os anos posteriores a 1917 oscilou bastante. Entretanto, com o aprofundamento das reformas socialistas na economia da recém-nascida União Soviética, tal liberdade se tornou quase nula voltando apenas a subir com as reformas de Mikhail Gorbachev (1985-1991) que acabaram por dar fim ao grande Império Vermelho.

Gostou? Leia também Socialismo para leigos: o fracasso econômico, Revoluções e Liberdade Econômica: França e Revoluções e Liberdade Econômica: 13 Colônias.

Mateus Maciel é estudante da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. É membro fundador do Grupo Frédéric Bastiat (EPL-UERJ), e escreve todos as segundas para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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