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Como aprender que o governo não é a solução

Eu me lembro de quando criança eu passava horas e horas jogando na frente do computador. Talvez isso seja um dos fatores que hoje me leva a ter de usar quengalhas (vulgo “óculos”) a todo instante. Um dos jogos que mais em encantavam era Sim City.

Para você, “que não teve infância”, já adianto que neste jogo você era prefeito de uma cidade, mas melhor dizendo você era o “José Sarney, Rei do Condado de Maranhão” na política: nunca perdia uma eleição, o que você decidia era lei naqueles arredores, contudo com a diferença ali de que se você falhasse, a culpa seria única e exclusivamente sua. Era um jogo realmente atraente: é apenas você decidindo perante as mais diversas situações vividas de um município, como você iria falhar?

No final das contas, o sujeito que ali jogava sempre – repito: sempre! – falhava. Essa situação era tipo Kurt Cobain: tiro-e-queda. Mesmo falhando sempre, eu levava de lema as palavras de Winston Churchill: “O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. A empolgação não durou muito. Vocês vão entender melhor o por quê disso.

O tempo passou, e parece que com aquilo aprendi bastante – tanto para a vida quanto para a prática das ideias. Melhor explico: aprendi, de forma cabal, que uma pessoa só não tem como saber aonde é melhor investir todo o dinheiro de uma cidade, e que o dinheiro era sempre escasso, e – o pior de tudo – as pessoas estão a todo instante insatisfeitas.

Se você pedisse empréstimos, você dava o primeiro passo para o Game Over. Se você investisse em “áreas que a população demandasse investimentos” – alô, subsídios! –, dava pouco tempo e logo o pessoal se desinteressava por aquele dinheiro investido (ironicamente isso sempre ocorria quando você investia na agricultura – áreas industriais de baixo valor em zonas afastadas da cidade: não dava alguns “meses” no jogo e aquilo lá já virava um monte de fabriqueta de baixa produção).

Ademais, ou você tinha serviços muito bons e muito ruins, e as pessoas (re)clamavam que você despejasse rios de dinheiro nas áreas deficitárias, ou você tinha todos os serviços só na média, e aí a reclamação era geral, todos querendo sua cabeça. “Prefeito, porque o senhor não investe mais em educação/ saúde/ transporte público/ estradas/ seja-lá-o-que-for-que-essa-gente-pede?”. Era como uma rua sem saída isso: para sair dali, só dando ré (e vê lá!) – e ninguém admite voltar atrás numa situação dessas.

Outro fato interessante era quando vinham empresas “suspeitas” à cidade que você administrava. Geralmente, elas pagavam uma excelente quantia de dinheiro, porém as pessoas indagavam que “os dejetos produzidos pela indústria tal poluem o meio-ambiente e blá-blá-blá”, e a infelicidade era sempre de ser esta mesma indústria uma das poucas fontes de tributos que ajudavam o intendente a pagar as dívidas feitas.

Gostaria que este jogo continuasse existindo, e que ele fosse proposto nas escolas. É uma das maneiras, creio eu, mais eficazes de ensinarem as crianças que não se decide nada, nadinha, sozinho. Que a sociedade civil é um todo compostos pelas mais diferentes pessoas e grupos, e evitar que um se torne espoliador do outro é a maneira mais eficaz de torna-la equilibrada e harmônica.

Talvez um dia elas, as crianças que jogaram ou ainda jogam este jogo, lembrem-se disso e refutem adequadamente as teorias keynesianas e marxistas, que promovem justamente as (des)aventuras daquele “ingênuo” (sic) jogo que era o Sim City.

Enfim, se até na realidade virtual, aonde praticamente todos os ventos sopram a favor do indivíduo, decidir tudo de forma absolutista não dá certo, imagina na realidade mesmo, aonde as constantes são mais variáveis que as próprias variáveis em muitas situações!… É bem possível que há poucas explicações para alguém crer que a intervenção de um único sujeito “dotado d’uma suprassuma inteligência” seja a única solução: ou o sujeito nunca jogou esse jogo, ou ele crê que exista almoço grátis, ou ainda, os dois.

 

Gostou? Leia também Onde houver (excesso de) governo, que se seja contra e O balão vai estourar?

Romário Becker Alcântara é estudante de Direto da UNIJUÍ e colabora para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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2 replies »

  1. Gostava muito também do SimCity. Possivelmente, ajudou-me a entender que não existe almoço grátis. Porém, as brechas que existiam para “roubar” (fazer aparecer o dinheiro por códigos “secretos”) acabavam totalmente com o sentido educativo do jogo. Conheci pessoas que jogavam, roubavam e ainda não aprenderam esses tão importantes princípios hehe

  2. Eu também joguei SimCity, e sofri. Era impressionante como, com o passar do tempo, o trânsito engarrafava e áreas residenciais ficavam abandonadas!

    A lição do jogo só aprendi muitos anos depois, lendo: como a informação está dispersa, é melhor tomar decisões em âmbito local/reduzido que em âmbito global/abrangente. É mais flexível, as expectativas são menores e o feedback é mais rápido.

    Enfim, um belo jogo pra desesquerdizar as crianças.

    Att.

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