Camilo Caetano

O Bolsa Família não reduziu a desigualdade

Quem me acompanha sabe que sou um crítico fervoroso do Bolsa família. A minha crítica é exatamente em relação ao modelo do programa e não a sistemas de distribuição de renda. Essa forma de ajuda adotada não é o principal fator de melhora em nossa desigualdade, mas serve mais para objetivo de cunho eleitoral do que criar mobilidade social. Explico: se o governo realmente quisesse que os desamparados pudessem ter condições melhores, ele oferecia uma verba maior ou financiaria os custos para os mais pobres pagarem por serviços privados de qualidade como educação ou saúde. Mas, para isso, teria que reduzir o número de beneficiados para não encarecer o programa. Como o objetivo do governo é eleitoral, quanto mais pessoas forem inclusas no programa, mais fácil será ganhar eleições. Não preciso qual das duas opções o governo escolheu.

Você pode estar perguntando: então, o que explica a queda na desigualdade social e pobreza nos últimos anos? A resposta é: crescimento econômico sem inflação. Nunca na história do Brasil conseguimos crescer tanto sem ao menos ter inflação, talvez apenas durante o crescimento do Regime Militar. E quem deveria receber créditos por isso? O Lula? Claro que não. O Brasil somente conseguiu estabilidade monetária a partir de uma séria de reformas liberais: criação do Plano Real e as privatizações iniciadas desde o governo Collor. Por que a desigualdade social só aconteceu na gestão PTista? O principal fator é o cenário externo. No período FHC, o mundo passou por 4 grandes crises e não colaborou para o crescimento da nação. A partir de 2001, ocorreu uma das maiores ondas de crescimento econômico mundial da história e puxou todas as economias emergentes exportadoras de commodities. Com a inflação controlada, o Brasil conseguiu criar riqueza e prosperar.

Se o crescimento econômico iniciou em 2001, por que não houve queda na desigualdade também na gestão FHC? Como posso provar que o Bolsa família não teve influência ou responsabilidade nessa redução? Respondo: A desigualdade caiu no período 2001 e 2003, e foi sob o comando do candidato do PSDB em que houve a maior redução de desigualdade durante o boom das commodities. Se observarem no gráfico (a mancha verde equivale ao período de maior crescimento mundial) , é possível notar que a queda do índice Gini (indicador que mede desigualdade social, no qual quanto menor o valor, mais igualitária é a sociedade) aconteceu apenas enquanto o mundo crescia, sem influência de nenhuma outra medida assistencialista. O Bolsa Família apenas foi criado em 2004 (http://goo.gl/JrYfz9 ), momento em que já havia uma tendência de queda na desigualdade (traço em vermelho no gráfico). Após a criação do programa, ao invés de acelerar a queda de desigualdade, houve uma desaceleração, o indicador se afasta da projeção de queda. Quando o boom econômico terminou em 2008, o programa assistencialista continuou se expandindo e não obteve nenhum resultado.

Valor das commodities ao longo do tempo.

Valor das commodities ao longo do tempo.

Agora talvez chegamos em uma outra dúvida: se Lula fez milagre no início de seu mandato e o crescimento econômico mundial foi apenas uma mera coincidência? Primeiro, o declínio na desigualdade não começou na era Lula e sim 2 anos antes, exatamente quando se começou o boom das commodities. Segundo, para o país crescer, ele precisa ser mais produtivo, e o Brasil não foi. Por exemplo: se eu vendo 1 banana para a Argentina, para eu ter progresso, eu precisaria ser mais eficiente e produzir mais que 1 banana nos próximos anos. O que aconteceu com o Brasil foi ao contrário, ao invés de produzirmos mais bananas, as nossas bananas que ficaram mais caras devido ao crescimento da demanda mundial. Se vocês repararem no gráfico, a produtividade dos brasileiros só caiu durante anos e enquanto isso as commodities de alimentos, produtos que nós exportamos, quase triplicou de preço durante a era Petista.

Produtividade da mão-de-obra.

Produtividade da mão-de-obra.

Lamentavelmente, a maioria dos brasileiros são leigos em economia e pouco sabem o que é bom ou não para o país. As reformas liberais feitas nas gestões anteriores aos petistas, que colaboraram para o milagre brasileiro, tem sido desfeitas gradativamente. Existe um sério risco do cenário internacional não mais favorecer nossa economia e boa parte de nossos ganhos sociais e econômicos podem ficar comprometidos, tudo por ignorância e burrice ideológica. Enquanto isso o Bolsa família vai continuar em expansão, não porque produz resultados e sim porque é a maior solução para conquista de votos já criada por um governante nacional.

Camilo Caetano é estudante de Ciências da Computação na UNESP-Rio Carlo e colabora para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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