Mateus Maciel

Quando a dívida se torna maior que o estado

A industrialização dos países da América Latina se deu através do processo de substituição de importações que pode ser resumido na seguinte frase: “Produzir internamente tudo aquilo que antes era importado ou aquilo que iríamos importar”. Dessa forma os setores de infraestrutura, indústria de base, saneamento e vários outros receberam fortes investimentos dos governos latinos.

Para seguir com esse processo, era necessária uma grande quantia de capital que muitos países não possuíam. Com isso, estes começaram a fazer empréstimos com grandes bancos (em especial os norte-americanos) para que o processo de industrialização continuasse em andamento.

Durante as décadas de 1950 e 1960 essa prática se tornou bastante comum e lucrativa, tanto que o mercado de Eurodólares acabou por fazer com que os bancos americanos concedessem empréstimos aos países latinos, em grande escala. Durante o governo JK e o período que compreende o milagre econômico ocorrido durante a ditadura (1968-1973), um grande volume de empréstimos foi feito para tocar o projeto rodoviarista, assim como as obras faraônicas.

Essa política de endividamento só foi possível devido ao ambiente favorável que o mundo estava vivendo, fazendo com que a taxa de juros que incidia sobre as dívidas (taxa LIBOR) dessas nações fosse baixa. Entretanto, a Crise do Petróleo (1973) acabou por interromper esse ciclo de bonança, uma vez que as economias da maior parte dos países do globo, especialmente a dos latinos americanos, era movida por essa commodity.

Com isso, como a taxa LIBOR era variável, as dívidas que até então estavam sob controle começaram a subir consideravelmente. Mesmo assim, os governos latinos seguiram solicitando mais empréstimos. Entretanto, uma grande parte desse capital era utilizado para importar petróleo, cujo preço tinha saltado no mercado internacional. Vale lembrar que, não apenas no Brasil, mas em outros países da América Latina, empresas estatais possuíam o monopólio da exploração e refino do petróleo, mas a produção destas estava longe de atender a demanda nacional pelos seus derivados.

Com o passar dos anos, o mundo foi sofrendo uma grande desaceleração econômica, fazendo com que o preço das commodities exportadas pelos países latinos perdesse valor, o que agravou ainda mais a situação desses. Nos Estados Unidos, os dois choques do petróleo também causaram danos a economia norte-americana, que estava vivendo um período de estagflação. Para controlar a oferta de dinheiro, o então presidente do FED Paul Volcker elevou a taxa de juros de 10,94% para 19,1%, fazendo com que a inflação caísse de 13,5% para 3,2%.

Tal aumento fez com que as dívidas dos países latinos crescesse assustadoramente. O México foi o primeiro a dizer que não conseguiria arcar com suas obrigações frente aos credores internacionais. Nos anos seguintes, Brasil, Argentina e Venezuela também começaram a ter problemas para quitar suas dívidas. Como esses países eram profundamente dependentes do capital externo para manter o crescimento, estes acabaram por viver um período de estagnação econômica (com baixo crescimento, aumento do desemprego e da inflação), durante a chamada “década perdida”. Durante a década de 1990, esses países puderam reestruturar suas dívidas através do Plano Brandy e retomar o crescimento.

Quando o estado se torna o grande indutor do crescimento econômico, como ocorreu na América Latina no período anterior a crise da dívida, acaba por cometer erros que comprometem o bem estar de todos os indivíduos. Visando desenvolver seus países a qualquer custo, esses governantes acabaram por tomar atitudes insanas, como recorrer a grandes empréstimos cujas taxas eram variáveis. Tal fato só elevou a dívida externa destes, causando um grande caos econômico. Veja no gráfico abaixo o crescimento da dívida externa de alguns países, em relação aos seus respectivos PIB’s:

No Chile, por mais que houvesse endividamento externo, as reformas liberais propostas pelos Chicago Boys fizeram os chilenos desfrutar de um período de grande crescimento. Contudo, com o aumento das taxas de juros nos EUA, esse ciclo foi interrompido em 1982. Posteriormente, as reformas do ministro Hernán Büchi (que também possuíam alguma dose de livre mercado) colocaram o Chile mais uma vez no caminho do crescimento.

Tais reformas reduziam a participação do estado na economia, deixando que o mercado fosse mais livre, mesmo com a ditadura de Pinochet. O resultado disso é visível nos números, uma vez que, enquanto o Brasil, a Argentina e o México viveram uma década perdida com inflação, baixo crescimento e desemprego, o Chile viveu um período de crescimento, inflação e desemprego em baixa. Enquanto a política for coordenada por burocratas que visam votos e respaldo popular, crises como a da dívida da América Latina continuarão ocorrendo.

Mateus Maciel é estudante da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. É membro fundador do Grupo Frédéric Bastiat (EPL-UERJ), e escreve todos as segundas para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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