Mateus Maciel

Goulart e Allende muito além do golpe (Parte II – Final)

No último texto, falei sobre como as políticas econômicas do governo de João Goulart acabaram por aumentar o clima de tensão que o Brasil vivia antes do Golpe Militar. Seis anos após a deposição de Goulart, foi eleito no Chile um político que tinha o objetivo de implantar o comunismo em seu país. Seria a “via chilena para o socialismo”.

Governo Allende

Eleito com apenas 36,3% dos votos, Salvador Allende prometia acabar com o desemprego, inflação, proporcionar educação gratuita e de qualidade para os chilenos, assim como assistência médica, previdência social, moradia… E várias outras promessas que não levam em conta o fato de os recursos serem escassos.

As medidas econômicas de curto prazo visavam reduzir os problemas oriundos da inflação que assolava o país. Dessa forma, foi aprovado um aumento salarial de 100% do Índice de Preços (IPC) para todos os trabalhadores e aumentos acima do mesmo índice para os trabalhadores menos remunerados. Tais medidas visavam aumentar o poder de compra da população que estava sendo reduzido devido ao processo inflacionário. Para estimular ainda mais a demanda e os investimentos, os juros foram reduzidos de 24% para 18%. Com isso, os bancos passaram a oferecer linhas de crédito com garantia do Banco Central do Chile.

O controle de preços também foi largamente utilizado durante o governo Allende, visando controlar a inflação, algo não muito diferente do que foi proposto pelos economistas do Plano Cruzado. Para que os preços não fossem elevados pelos produtores, foi criada a “Oficina Coordinadora, Difusión y Denúncias”, uma espécie de Superintendência Nacional do Abastecimento (SUNAB). Esse órgão do governo chileno tratava de fiscalizar os preços, através de denúncias de consumidores e distribuía tabelas de preços.

Uma nova política tributária foi implementada, fazendo com que as grandes corporações e as classes média e alta pagassem mais impostos. Um “Fundo Nacional de Capitalização” chegou a ser proposto pelo presidente para que as empresas estatais tivessem capital para operar. Esse fundo seria composto por aportes obrigatórios de empresas privadas cujos lucros superassem dois milhões de escudos.

Com essas políticas, os resultados obtidos foram incríveis. O PIB cresceu 9%, em 1971, a inflação caiu para 22,1%, o salário médio cresceu 16,3%, o comércio e a indústria de transformação cresceram, respectivamente, 13,6% e 15,8%. A curto prazo, as políticas progressistas apresentam resultados impressionantes, mas a médio e longo o cenário muda drasticamente.

Devido ao controle de preços, produtos começaram a sumir das prateleiras e o mercado negro começou a crescer rapidamente (entenda as consequências do controle de preços nesse texto). Como os produtos no mercado paralelo eram muito mais caros que o da tabela, os mais pobres passaram a ficar sem alimentos básicos. Os gastos do governo com programas sociais fizeram o déficit público saltar de 2,7% para 10,7% do PIB, a inflação retornou a subir, os investimentos começara a cair e os credores internacionais passaram a exigir que o FMI monitorasse o país.

Para tentar solucionar esses problemas, Allende fez uma reforma no Ministério da Fazenda e da Economia. Com isso, a moeda foi desvalorizada em 56%, mas em 12 meses a inflação atingiu a marca de 142%. O cenário só piorava, uma vez que déficit publicou continuou subindo, a quantidade de dinheiro na economia cresceu brutalmente (185%) e o crescimento da dívida externa não foi contido. No ano de 1973 (ano do golpe militar), a deterioração do ambiente econômico foi profunda: o déficit público estava em 24,7% do PIB, a produção industrial caiu, assim como os salários (46%) e a inflação chegou a 508%.

Variação do Índice de Preços ao Consumidor (Inflação)

Analisando esse cenário, é possível concluir que políticas progressistas acabam por afundar o crescimento econômico. A crescente nacionalização da economia chilena (várias estatais foram criadas e empresas foram estatizadas) e os gastos sociais fizeram com que o déficit público crescesse, levando o governo a emitir moeda. Contudo, não é possível criar dinheiro do nada sem que a população pague um preço: perda do poder de compra, devido ao processo inflacionário.

O controle de preços, outra prática completamente anacrônica, foi adotado para controlar a inflação. Contudo, o aumento de preços é uma consequência da expansão monetária, dessa forma o governo estava atacando o problema de forma equivocada. Tal medida prejudica principalmente os mais pobres, que não possuem dinheiro suficiente para comprar os produtos no mercado paralelo e acabam por sofrer com a falta de produtos básicos.

O aumento de impostos para os setores que “podem contribuir mais” é outra insanidade, principalmente com relação ao setor produtivo que emprega milhares de pessoas e realiza investimentos no país. No final, políticas que “visam o bem de todos” acabam por comprometer o crescimento econômico, assim como afetam profundamente os mais pobres.

Conclusão

Jango e Allende, através de políticas econômicas progressistas, acabaram por causar um profundo caos. Negligenciando completamente os ideais do livre mercado, que levam em conta não os desejos dos desfavorecidos, mas de todos os indivíduos que através de suas escolhas fazem com que a economia se mova, sem que burocratas inventem teorias econômicas com suas canetas nervosas em prol do “bem comum”.

Controle de preços, nacionalização de empresas, aumento dos gastos públicos com medidas sociais, elevação de impostos, aumento de tarifas de importação… E várias outras medidas adotadas por esses dois governantes só empacam o crescimento econômico, uma vez que geram inflação, dificultam o comércio, reduzem as margens de lucro e tornam o Estado grande o suficiente para impedir o crescimento dos indivíduos.

Os golpes militares que ocorreram no Chile e no Brasil foram o preço dessas políticas. Atualmente é comum ouvir pessoas defendendo as mesmas, sendo que a História nos prova que estas não funcionam.

Mateus Maciel é estudante da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. É membro fundador do Grupo Frédéric Bastiat (EPL-UERJ), e escreve todos as segundas para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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