Mateus Maciel

Goulart e Allende muito além do golpe (Parte I)

Durante a Guerra Fria, a América Latina foi um grande palco de disputas entre os EUA e a URSS. Inúmeros países sofreram interferência no campo político, econômico e até mesmo social por parte dessas duas nações. Os governantes latinos trataram de escolher seus lados e muitos, junto com os seus países, pagaram o preço por essas escolhas.

João Goulart e Salvador Allende são exemplos de políticos que insistiram em modelos de desenvolvimento que, apesar de estarem em alta na época, já estavam fadados ao fracasso. O golpe militar que ocorreu no Brasil e no Chile, apoiado pelos EUA, tirou esses dois presidentes do poder. Entretanto, a deposição não é o único fato partilhado entre eles e, para provar isso, utilizarei a Economia e a História.

Governo Goulart

Após inúmeros impasses que colocaram o governo de Jango em xeque, o mesmo se tornou presidente em 1961, dentro do regime parlamentarista. Na época, o Brasil estava colhendo os frutos da “herança maldita” deixada por JK, devido à implementação do Plano de Metas: inflação em alta, baixo crescimento do PIB e perda do poder de compra.

Para solucionar esses problemas, foi elaborado pelo economista Celso Furtado, que então comandava o Ministério do Planejamento, o Plano Trienal. O plano visava reduzir a inflação, o déficit público, assim como previa uma ambiciosa estratégia de crescimento para o país. Para tanto, o controle da emissão de moeda seria importante, uma vez que o Brasil necessitava de capitais externos para seguir com o processo de industrialização. Vale lembrar que, desde o governo JK, a imagem do Brasil perante aos credores internacionais estava profundamente manchada.

O governo foi capaz de conter os gastos por algum tempo, mas Jango acabou por ceder às pressões trabalhistas que reivindicavam aumento salarial. Dessa forma, o salário mínimo sofreu um aumento de 56,25% e o salário dos funcionários públicos foi elevado em aproximadamente 60%. O resultado dessa política foi um aumento no déficit público em 30% e uma forte queda do PIB, em 1962.

Outro ponto interessante do plano que não foi alcançado devido às políticas progressistas do governo foi a meta de crescimento do PIB de 7%. Isso porque, seguindo os moldes do governo Vargas, os economistas que elaboraram o Plano Trienal acreditavam que os produtos importados deveriam ser gradualmente produzidos no Brasil. Com isso, empregos seriam criados, o consumo interno e o crescimento industrial nacional aumentariam substancialmente (esperava-se um crescimento de 70% no setor). Entretanto, tais metas não foram atingidas, uma vez que os salários foram aumentados (sem que houvesse aumento da produtividade), os impostos foram elevados, assim como as tarifas de importação.

As Reformas de Base, muito polêmicas, também faziam parte do plano. Elas compreendiam uma série de intervenções em vários setores, sendo a reforma agrária uma das mais importantes. Foi durante o governo Jango que os trabalhadores rurais ganharam inúmeros “direitos”, mas a grande reforma necessitava ser aprovada por 3/5 do Congresso, pois era necessário fazer uma reforma constitucional para que os proprietários de terra fossem indenizados com títulos da dívida agrária, o que não foi alcançado. Ainda assim, no comício realizado por Goulart na Central do Brasil (RJ), foi decretado que:

“… propriedades rurais superiores a quinhentos hectares, marginais às estradas federais numa faixa de dez quilômetros.”
“… seriam desapropriadas para fins de reforma agrária as áreas superiores a trinta hectares, marginais dos açudes e obras de irrigação financiadas pelo Governo.”

A questão da remessa de lucros de empresas estrangeiras também gerou polêmica. Segundo o decreto, as firmas que obtivessem um lucro acima de 10% teriam que deixar o excedente no Brasil, para que fossem realizados investimentos. A nacionalização de empresas de petróleo, em prol da Petrobras, também foi uma das medidas lidas comício:

“… eram sujeitas a desapropriação e encampação das refinarias privadas em favor da Petrobras”. 

No final, o Plano Trienal, as Reformas de Base e as inúmeras intervenções no campo econômico acabaram por proporcionar resultados muito menores que os esboçados por Celso Furtado. Veja no gráfico abaixo:

Abrindo o Brasil para o mundo, reduzindo os gastos e não cedendo às pressões trabalhistas, o governo de João Goulart poderia ter sido bem sucedido. Por mais que o crescimento econômico e o emprego fossem afetados no curto prazo, posteriormente a população desfrutaria dos ganhos oriundos de uma política mais liberal, como ocorreu no Chile. Contudo, Jango seguia a linha de desenvolvimento nacionalista de Vargas, e jamais ousaria entregar o Brasil para os yankees imperialistas.

O rumo escolhido por Goulart acabou por gerar um grande descontentamento na sociedade e tornou a situação política ainda mais tensa. Externamente, os EUA passaram a interpretar as medidas progressistas de Goulart como sendo de caráter socialista, o que pesou bastante na decisão do governo americano de intervir na vida política do Brasil (financiando as campanhas de políticos oposicionistas) e, posteriormente, de apoiar o golpe militar.

No próximo texto falarei sobre o governo de Salvador Allende e como a sua “via chilena para o socialismo” acabou por provocar um caos econômico, político e social em seu país.

Mateus Maciel é estudante da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ. É membro fundador do Grupo Frédéric Bastiat (EPL-UERJ), e escreve todos as segundas para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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