Marcos Ruppelt

O incrível caso do país sem direita

“A política brasileira é uma disputa entre a mão esquerda e os seus próprios dedos.” Com essa frase proferida no dia 14 de novembro de 2013, Paulo Eduardo Martins, o brilhante comentarista político do SBT, resumiu uma relação já antiga e infeliz que vivemos no Brasil. O Brasil é um país aleijado, é um país de uma mão só.

O atual cenário político é estarrecedor. O Brasil possui 32 partidos registrados no TSE e nenhum deles pode ser considerado um partido de direita. Para saber o que é direita faz-se necessário investigar onde esse fenômeno de fato existiu ou existe. Enquanto muitas pessoas vão gastar seu tempo dizendo que existem sim partidos ligados a bandeira conservadora e liberal, recomenda-se levar em conta dois pontos:

1. Ler o programa político de cada um dos 32 partidos disponibilizado em seus respectivos sites.
2. Conhecer a obra de Edmund Burke, pai do conservadorismo anglo-saxão moderno.

Inclusive, transcreve-se aqui o parágrafo sexto da segunda seção do programa político do PSDB, redigido em 25/06/1988, para agilizar o trabalho daquele ser humano que ainda acredita que o PSDB represente alguma bandeira liberal e conservadora:

“(…) Recolhendo a herança democrática do liberalismo, não partilhamos com os liberais conservadores a crença cega no automatismo das forças de mercado. Nem pretendemos, como eles, tolher a ação reguladora do Estado onde ela for necessária para estimular a produção e contribuir para o bem-estar, e desde que a ação estatal seja controlada pela sociedade e não guiada pelo interesse corporativo da burocracia ou pela vocação cartorial de grupos privados. Por isso, na concepção de democracia do PSDB, a racionalidade da relação entre os fins desejados pela sociedade e os meios disponíveis requer transparência da informação e participação ampla dos cidadãos nas decisões sobre as políticas públicas.”

Voltando ao que importa, a situação no Brasil é realmente única (no sentido negativo). Fato é que todas as grandes democracias do mundo têm ao menos um partido conservador forte, como o PP espanhol, o Partido Republicano dos Estados Unidos, a UMP francesa e o PDL italiano, e os próprios Tories britânicos. O que teria levado a direita brasileira à inexistência enquanto, em outros países próximos – como o Chile, ela ocupa o poder máximo (e leva a um desenvolvimento incrível)?

Conforme supramencionado, um dos precursores do pensamento conservador foi o inglês Edmund Burke. No século XVII, ele definiu o conservadorismo como uma doutrina política. Esta corrente política considera que os indivíduos realizam as coisas melhor do que o estado. Que as liberdades individuais devem ser mantidas a todo o custo. E que os valores tradicionais da sociedade devem ser preservados. Nas democracias modernas, o conservadorismo se traduz como uma recusa ao estatismo, a defesa do livre mercado, e, em alguns casos, oposição a medidas como o aborto.

No Brasil, o discurso adotado pelos partidos políticos pouco se diferencia: todos adotam termos como “justiça social”, “distribuição de riqueza” e “igualdade material”. Obviamente, ninguém é contra essas bandeiras, mas o linguajar denuncia que todos, por razões diversas, adotam um vocabulário de esquerda. Expressões como “livre iniciativa”, “responsabilidade individual” e “valores morais” raramente são ouvidas pelos corredores do Congresso ou do Palácio do Planalto. As palavras “social”, “trabalhista” e “socialista” aparecem na maioria dos nomes das legendas. Mesmo assim há uma insistência dentro de Brasília de enquadrar partidos como o DEM dentro da doutrina liberal conservadora, mas o próprio presidente do partido, José Agripino Maia, desmente isso ao dizer que o partido é de centro.

A esse tipo de situação, o filósofo, professor,  e jornalista Olavo de Carvalho deixa claro suas conclusões: “A limitação do ideário conservador ao aspecto econômico é uma estratégia da esquerda. O que o governo faz? Reserva uma margem de manobra para a empresa privada, mas exerce o controle total sem exercer a responsabilidade. Se tudo dá certo, é glória do governo. Se tudo dá errado, é culpa do empresário. Uma oposição que se limite à defesa da propriedade privada não oferece risco algum para o socialismo. A verdadeira corrente conservadora se manifesta também por um ideário de direitos civis, de liberdade religiosa, da defesa da moral judaico-cristã, da educação clássica, com padrões exigentes. É uma concepção integral da sociedade. Os liberais que acabam concordando com a esquerda no seu ideário cultural e moral são traidores. Uns são traidores conscientes, outros por idiotice.”

Recentemente, Gabriel Castro escreveu na Revista VEJA sobre situações peculiares relacionado a inexistência da direita no Brasil:O declínio de valores não-esquerdistas se acentuou a partir do governo Lula, quando o PT moderou seu posicionamento e roubou parte do discurso de partidos de centro, enquanto transformava culturalmente o Brasil numa Venezuela do Sul. Legendas que a princípio eram pouco afeitas às ideias do partido deixaram as diferenças de lado para ingressar na partilha do poder: é o caso do PR, que resultou da fusão do PL com o Prona, do PTB, do PP e do PMDB. Todos se dizem centristas. O adesismo inflou o bloco governista e juntou a esquerda moderada, a socialistas anacrônicos e a arrivistas de olho na divisão de benesses. Com isso, o PT arrastou consigo praticamente todos os partidos com algum peso. PSDB e DEM permaneceram na oposição mais por questões estratégicas do que programáticas.”

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O mais incrível desse caso é que mesmo com toda transformação política vivida no Brasil desde a redemocratização em 1985, o discurso ideológico não é afinado na oposição. O quase jurássico PCB se alia a socialistas radicais como PCO, PSTU e PSOL na luta contra o suposto ‘neoliberalismo’ do PT. E o PT trava uma luta contra os tucanos, representando a verdadeira disputa entre os próprios dedos da mão esquerda.

Petistas e tucanos, aliás, têm mais similaridades do que diferenças. O líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias, reconhece que a disputa tem mais a ver com a aplicação das ideias do que com a orientação ideológica: “O PT, no poder, adotou as propostas do PSDB. Não inovou. Não há nenhum programa social novo. Ocorre que a execução é que é diferente. Geralmente, a postura do PT é mais promíscua em relação ao Legislativo”, afirma.

O grande ponto que devemos analisar é em relação a experiência militar vivida no Brasil de 1964 a 1985. O governo militar se ocupou de combater a guerrilha, mas não de combater o comunismo na esfera cultural, social e moral, conforme se fazia necessário em meio à Guerra Fria. Havia a famosa teoria da panela de pressão, do general Golbery do Couto e Silva. Ele dizia: “Não podemos tampar todos os buraquinhos e fazer pressão, porque senão ela estoura”. A válvula que eles deixaram para a esquerda foram as universidades e o aparato cultural, utilizadas graciosamente pelos oficiais da KGB, com pérolas que nos fazem rir até hoje. Na mesma época, uma parte da esquerda foi para a guerrilha, mas a maior parte dela se encaixou no esquema pregado por Antonio Gramsci, que é a revolução cultural, a penetração lenta e gradual em todas as instituições de cultura, mídia, etc. Foi a facção que acabou tirando vantagem de tudo isso – até da derrota, porque a derrota lhes deu uma plêiade de mártires.

Após todos esses anos, torna-se claro que o domínio cultural é a base mais sólida para uma ideologia chegar ao poder. E é justamente por isso, que liberais e conservadores sabem que a equiparação cultural (tendo em vista que hoje vivemos em uma hegemonia marxista/gramsciana, basta você ligar assistir a novela das 21h da Rede Globo ou frequentar qualquer universidade pública) é a prioridade.Em qualquer país decente, a direita e a esquerda repartem mais ou menos equitativamente os meios de difusão. No Brasil, quando a direita salta dos dois por cento para os cinco por cento, já é o alarma geral, em tons sinistros de quem anuncia um golpe de Estado”, disse essa semana Olavo de Carvalho. De fato, para que um partido com raízes liberais e ou conservadoras possa nascer e ser opção de voto e desenvolvimento para a sociedade brasileira torna-se necessário equiparar culturalmente, e é aí, que encontramos o grande desafio. A diferença é que, conquanto a esquerda exerce influência através da coerção e dinheiro estatal, a direita – por princípios – acredita (hoje) tão somente no direito de livre escolha do indivíduo.

A essência da democracia é a existência de correntes opostas e o seu rodízio no poder, de forma que nenhum governo possa introduzir modificações desastrosas que um governo seguinte não possa fazer. Funcionou em toda a Europa e está provado que é a única saída eficiente. Ninguém tem a solução de todos os problemas. Humildade política é um conceito importante.


Há quem comemore o fim da distinção entre esquerda e direita como um avanço da democracia (como no caso do icônico líder do Foro de São Paulo, e milionário representante da esquerda caviar, Luiz Inácio Lula da Silva), mas todos nós sabemos claramente que esse é um grande problema que estamos enfrentando. O que existe de positivo em esconder a realidade das forças que estão em jogo? O fato de que uma boa parte do pessoal dito direitista esteja servindo à esquerda não significa que direita e esquerda tenham desaparecido. A população brasileira possui traços verdadeiramente conservadores e até liberais (vide pesquisa sobre privatizações, e o próprio referendo de 2005 sobre o desarmamento do cidadão brasileiro).  Ela apenas não está informada sobre quem é quem no cenário eleitoral, e o que isso a trará no longo prazo, ou seja, além dos quatro anos de período eleitoral. Então, vota-se nos candidatos que existem.
É uma situação onde o engano, a mentira e a farsa foram oficializados.
A farsa ganhou o jogo.

A farsa ganhou o Brasil.

Marcos Ruppelt é graduando em Engenharia de Produção pela UFSM e em Administração pela UNIFRA.
Escreve todas as sextas para o site do Clube Farroupilha.

As informações, alegações e opiniões emitidas no site do Clube Farroupilha vinculam-se tão somente a seus autores.

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